A Trajetória de Edmar Roque 
O Homem que preservou a tradição, inspirou a modernidade e reinventou a boemia da capital mineira.

Um amor imensurável por Belo Horizonte e um espírito de pioneirismo sem igual, que o levou a reinventar a boemia da cidade e entrar para a história como um dos responsáveis por tornar BH a capital mundial dos bares. Essas são algumas entre as maiores marcas do empresário Edmar Roque, o mineiro que nasceu em Arcos em 1949 e, aos 17 anos, deixou o interior do Estado, trazendo na bagagem coragem, determinação e o sonho de construir uma vida melhor para todos que, assim como ele, sonhavam com uma sociedade mais justa e acolhedora.

Disposto a enfrentar os desafios que a vida lhe impôs, ele aceitou a missão de começar de forma simples. Ao chegar a Belo Horizonte, logo mostrou a que veio e trouxe consigo um pouco de sua cidade natal. Ciente das tradições de Minas Gerais e de sua excelência na fabricação de bebidas no interior, ele brindava os mineiros com cachaças que vendia nos botecos da capital e, claro, não demorou muito para despertar em si a vontade de ter o próprio negócio, no qual pudesse imprimir sua marca pessoal, ajudar o próximo e criar novas raízes.

Pulsava em suas veias o desejo de empreender e expressar a paixão pelo comércio. Nasce, então, o primeiro de seus muitos empreendimentos bem sucedidos, o Mon Cheri. Fazendo jus à hospitalidade mineira e ao sabor caseiro que consagram a gastronomia do Estado, ele optou por vender de tudo um pouco, agregando à cachaça aquele típico tira-gosto, que só os amantes de uma boa bebida sabem apreciar.  Não demorou muito para que ele desse um passo ainda maior, adquirindo a lanchonete New Hambúrguer, em frente a Imprensa Oficial de Minas Gerais. Lá, ele ofertava a todos sanduíches, sucos, vitaminas e, claro, sua sincera amizade e uma boa prosa.

Porém, foi na década de 80 que ele se tornou o proprietário e gestor daqueles que seriam os maiores marcos de sua bem sucedida trajetória no coração da capital. Ao adquirir o restaurante Cantina do Lucas (em 1983), patrimônio cultural de Belo Horizonte, situado no edifício Arcângelo Maletta, polo da resistência cultural da cidade; e a Casa dos Contos (em 1984), com localização na Savassi, uma das regiões mais prestigiadas de Belo Horizonte, Edmar Roque os colocou na rota boemia que, aos poucos, iluminava a noite de BH. “Ele resgatou a história dessas casas e as elevou a um nível muito maior”, relembra a filha Ana Luiza Roque, ao contar sobre a notoriedade e conceito que ambas as casas conquistaram graças à gestão do pai. Consciente da tradição dos restaurantes, ele conferiu a eles identidades próprias, advindas da arte e do talento de um mesmo criador. 

Envolvido em todas as fases do processo, ele atuou em todas as áreas, indo desde a montagem dos pratos até a entrega aos clientes, que foram fidelizados por sua excelência, simpatia e olhar humano. “Ele conhecia todos os detalhes e era um projetista nato, que arquitetava suas ideias com primor”, revela sua filha Maria Leonor Roque. 

Eterno apoiador das artes e da liberdade de expressão, ele deu continuidade a Cantina do Lucas como ponto de encontro de artistas, intelectuais e jornalistas de todo país e, porque não dizer, do mundo. “Personalidades famosas como Fernanda Montenegro, Débora Duarte, Milton Nascimento, Elba Ramalho, Paulo Beth e tantos outros passaram por ali”, relembra Maria Xavier Roque, que construiu com ele seu maior patrimônio, a família. De cada restaurante, famosos e anônimos levaram memórias que sobreviveram ao tempo e permanecem vivas no coração de todos. E quantos artistas anônimos foram agraciados por sua bondade, mão generosa e olhar humano? O mais importante era o trabalho de qualidade do artista, sendo esse conhecido ou não. “Para ele, os artistas deviam ser mais valorizados, e ele lutou muito por isso”, declara a filha Maria Leonor.

Apoiador assíduo da revitalização do centro da capital, ele recebeu em 1993 o título de cidadão honorário. Feliz por ter seu trabalho reconhecido em prol da cidade em que trabalhou de segunda à segunda, ele recebeu com humildade a honraria: “Lembro dele dizer que o prêmio era a consequência de seu empenho”, revela a filha Ana Luíza. Ao longo de sua história, Edmar Roque foi agraciado por inúmeras vezes com prêmios que reconheciam os restaurantes como referências na tradição e na gastronomia do Estado.  

Com hábitos simples, jeito brincalhão e paixão pelo conhecimento, tinha as viagens como hobbie e incentivou as filhas a desbravarem novos pontos pelo mundo. “É no centro que está a cultura de um lugar”, dizia ele. Sempre disposto a contribuir com aqueles que se aventuravam pela vida acadêmica, ele compartilhava princípios preciosos, advindos de sua longa experiência. “Lembro dos olhares de surpresa de estudantes que o viram ao meu lado em uma apresentação na UFMG, sua disposição e interesse atraiam os olhares de todos”, narra a filha Eliza Roque.

Amante dos esportes, ele trouxe para a cidade o “BH Boliche”, o primeiro da história de BH com a estrutura e tecnologia moderna, trazendo inclusive campeonatos internacionais, para a alegria dos mineiros. Juntamente com dois sócios, ele inaugurou uma nova era de lazer e provou que a inovação era mesmo sua marca registrada. Pioneiro nato, ele foi o primeiro a colocar as mesas dos bares na calçada, aproximando os clientes e levando para além das portas a beleza, hospitalidade e a qualidade dos pratos e bebidas que servia ao público. “Muitos bares e restaurantes não sobreviveram à prova do tempo, mas ele uniu a tradição à modernidade e construiu bases sólidas”, declara Antônio Aguiar, mais conhecido como “Mourão” e gerente da Cantina do Lucas. Após trabalhar décadas ao lado de Edmar Roque, ele relembra uma das muitas especialidades do amigo e patrão: “Ele estava sempre presente, personalizava cada atendimento e se tornou uma inspiração para todos”, relembra ele, com emoção.

Apaixonado pela vida, Edmar Roque compunha  sonhos para o futuro com a família e celebrava com alegria a chegada do primeiro neto. Porém, no dia 7 de janeiro deste ano, a cidade amanheceu em luto. Após lutar pela vida até o último instante, ele seguiu rumo à eternidade. 

Seus grandes feitos, imortalizados pelo tempo, contam hoje a história da boemia belo-horizontina de forma admirável e singular e são inspiração para as filhas, Eliza, Ana Luiza e Maria Leonor, que receberam com orgulho a missão de dar continuidade ao grandioso trabalho de Edmar Roque, o homem que preservou a tradição, inspirou a modernidade e reinventou a boemia da capital mineira.